Rastros

 

Em Rastros, sua primeira individual, a artista paulistana Layla Motta lida com um projeto de envergadura sobre o fotográfico, mesmo que as imagens dispostas na Sala Zip’Up se desenvolvam por um caminho fragmentado.

Ao comentar a produção, Motta enfatiza que o tempo é matéria-prima do seu olhar. E, para isso, a utilização de um projeto-chave na história da arte contemporânea _ Um Passeio pelos Monumentos de Passaic, Nova Jersey (1967), de Robert Smithson (1938-1973) _, que resulta na série Passaic (2012), exibe um traço ambicioso da obra da artista, sem deixar de ser experimental. Afinal, requer coragem rever o legado smithsoniano e desdobrá-lo em uma proposição de land art expandida _ sim, land art não necessariamente está ligada a intervenções na natureza; registros fotográficos que tragam à tona o vestígio, o antimonumento, o desfeito, a ruína em colapso antes da sua completude, entre outros elementos, são pungentes testemunhos da contemporaneidade de Smithson, Heizer, Holt, Oppenheim.

Ao mesmo tempo, o foco de Motta ao refazer o trajeto de Smithson pela cidade natal guarda ainda mais uma outra faceta, que evidencia a potência do banal e do prosaico. Um saco de lixo esgarçado, entregue a inexorável processo entrópico. Uma fachada de construção suburbana, espécie de bric a brac de texturas e superfícies absolutamente enfadonhas. Duas imagens que condensam alguns dos vetores poéticos da artista, como a destacar a investigação de pequenezas atentamente observadas, captadas e retrabalhadas até o arranjo final, em um ambiente expositivo.

“Na verdade, o Centro de Passaic não era um centro _ era antes um típico abismo ou um vácuo comum”1, destaca Smithson no texto de 1967. O “caos unitário”2, imagem paradoxal e tão precisa levantada pelo artista sobre tal lugar, pode ser percebida no conjunto de Rastros. Perpassa por todas as fotografias certo vazio. A falta, abissal ou menos profunda que o projetado, atesta uma visada a respeito do efêmero, do precário, por meio de registros visuais variados, originários de séries diferentes. Assim, árvores colocadas em par se mimetizam, mas, vendo-se com cuidado, trazem detalhes que a distinguem. O enigmático está imbricado em pernas soterradas pela areia da praia, em jovens corpos embrenhados num verde algo assustador da Mata Atlântica e em movimentos incessantes de uma ponta de mar do litoral norte de São Paulo, capturados de modo serial, em diversos momentos.

E existe Via Láctea (2012), da série Dormência, imagem-chave que une o tempo rotineiro, cotidiano e terrestre ao mais largo, de âmbito geológico, estelar e cósmico. Ladeando casas abandonadas no políptico original, o registro noturno gera sentidos mais comuns. Tratada isoladamente, a fotografia se atira para interpretações menos corriqueiras e pode adquirir contornos científicos _ astrofísicos, por exemplo. E as luzes de um corpo celeste que já se extinguiu evocam a finitude e a maleabilidade do tempo, tão bem lapidado pela autora em seus rastros, a ganhar leituras metafísicas, filosóficas e outras que o pensamento levar. “Um artista só é escravizado pelo tempo se o tempo for controlado por alguém ou por alguma coisa que não ele próprio. Quanto mais fundo um artista mergulha na torrente do tempo, mais este se torna esquecimento; por isso, o artista tem de permanecer perto das superfícies temporais. [...] (O artista) tem de explorar a mente pré e pós-histórica; tem de entrar em lugares onde futuros remotos encontram passados remotos”3, escreve Smithson em seu central Uma Sedimentação da Mente: Projetos de Terra (1968).

E, ao encontro do que Flusser, Benjamin e Arendt já discorreram anteriormente na teoria da fotografia, a obra da artista paulistana abre janelas para o ‘entre’, plenas de sentidos, por menos radiantes que aparentem ser tais passagens. “A fotografia, em consequência, apresenta um modo de pensar sobre a relação entre o passado e o futuro e da nossa posição nesse intervalo, mais preciso. É mais, pode ser o meio que se insere no intervalo vazio que existe entre passado e futuro e nos ensina que o futuro nunca é o que pensamos que será. O futuro, como nos lembra toda fotografia, é pura potencialidade. Não é a continuação do passado, senão um resultado direto da nossa situação ao sermos inseridos no tempo como o vazio intermediário do passado e do futuro”4, argumenta o teórico alemão Ulrich Baer. Por meio de intervalos, silêncios, objetos (re)encontrados, naturezas marcadas pelo mistério, intimidades de corpos, constructos humanos desmanchados, o fotográfico de Layla Motta é revelador.

 

 

Mario Gioia

 

 

Graduado pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), coordena pelo terceiro ano, em 2013, o projeto Zip'Up, na Zipper Galeria, destinado à exibição de novos artistas e projetos inéditos de curadoria. Foi o curador de Ela Caminha em Direção à Fronteira, de Ana Mazzei, primeira individual da série de exposições Zip'Up em 2012 (no ano, também houve Lugar do Outro, de Julia Kater, Transmission, de Geraldo Marcolini, Íntima Ação, de Carolina Paz, Planisfério, de Marina Camargo, Requadros, de Mariana Tassinari, e a coletiva Imagem Mi(g)rante). Em 2012, também fez as curadorias de Incerto Limite, de Shirley Paes Leme (Bolsa de Arte, Porto Alegre); Miragem, de Romy Pocztaruk, e Distante Presente, de Gordana Manic (ambas na galeria Ímpar). Em 2011, inaugurou o projeto Zip'Up com a coletiva Presenças (que teve como outras mostras Já Vou, de Alessandra Duarte, Aéreos, de Fabio Flaks, Perto Longe, de Aline van Langendonck, Paragem, de Laura Gorski, Hotel Tropical, de João Castilho, e a coletiva Território de Caça, com a mesma curadoria). Em 2010, fez Incompletudes (galeria Virgilio), Mediações (galeria Motor) e Espacialidades (galeria Central), além de ter realizado acompanhamento crítico de Ateliê Fidalga no Paço das Artes. Em 2009, fez as curadorias de Obra Menor (Ateliê 397) e Lugar Sim e Não (galeria Eduardo Fernandes). Foi repórter e redator de artes e arquitetura no caderno Ilustrada, no jornal Folha de S.Paulo, de 2005 a 2009, e atualmente colabora para diversos veículos, como as revistas Bravo e Bamboo e o portal UOL, além da revista espanhola Dardo e da italiana Interni. É coautor de Roberto Mícoli (Bei Editora), Memória Virtual - Geraldo Marcolini (Editora Apicuri) e Bettina Vaz Guimarães (Dardo Editorial, ESP). Faz parte do grupo de críticos do Paço das Artes, instituição na qual fez o acompanhamento crítico de Black Market (2012), de Paulo Almeida, e A Riscar (2011), de Daniela Seixas. É crítico convidado do Programa de Fotografia 2012/2013 do CCSP (Centro Cultural São Paulo). 

 

 

  1. SMITHSON, Robert. Um Passeio pelos Monumentos de Passaic, Nova Jersey. Revista Arte e Ensaios, PPGAV/EBA/UFRJ, Rio de Janeiro, 2009, n. 19, p.166

  2. SMITHSON, Robert. Idem, p. 165

  3. FERREIRA, Glória e COTRIM, Cecilia (org.). Escritos de Artistas – Anos 60/70. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2006, p. 197

  4. MAH, Sergio (org.). El Tiempo Expandido. Madri, La Fábrica, 2010, p. 47 e 48